MALLU MAGALHÃES
Um grande amigo meu e leitor deste blog me perguntou outro dia, via Orkut, o que eu achava de Mallu Magalhães. Quem? Falando a real eu digo pra voces que estava por fora do buxixo em torno da menina e fui me interar. Eis o que penso. A menina é legal porque é real.
TCHUBARUBA
MALLU MAGALHÃES
Mallu Magalhães é a primeira “cantora” brasileira a assumir um “status” (discutível) de fenômeno de acessos no site Myspace.com. Lá fora, no ultramar, isso não é novidade, vide o estouro de cocotas cantantes como Kate Nash, Lilly Allen, Colbie Caillat e outras menos cotadas. Os quase trezentos mil acessos à página de Mallu no Myspace não se comparam aos milhões que essas meninas acima conseguiram no mesmo meio de comunicação virtual, mas, é uma quantidade considerável para um país como o Brasil e merece um olhar, hum, analítico.
Antes de começar a escrever, terminei minhas audições das canções disponíveis no site, procurei mais alguns registros da menina e concluí que temos sete músicas na voz de Mallu, sendo que uma delas é uma cover de Johnny Cash, “Folsom Prison Blues” e apenas “Vanguart” tem letra em português.
As referências que habitam seu som são boas, pelo menos é o que ela diz, indo de Beatles e Dylan, passando por Tropicália, Johnny Cash, “O Leãozinho” (sim, a canção do Caetano), Cat Power, Belle And Sebastian, chegando em Vanguart, banda conhecida da midia e da TV la de Cuiabá que dizem que faz folk rock.
Mallu é paulistana, tem quinze anos e dona de uma beleza tipicamente nerd, algo que parece ser universal: palidez, cabelos castanhos meio avermelhados, olhos claros e voz de criança. Ela tem algo que falta em muitos segmentos da combalida engrenagem musical, seja na produção, criação ou comercialização: espontaneidade.
Entrevista Programa Altas
Horas
http://br.youtube.com/watch?v=Knp_EikoUwc
Ao contar sobre sua carreira em entrevista no programa Altas Horas, ela não parecia intimidada pelo aparato da Globo TV mas nitidamente não se encaixava no modelo de atração da emissora, causando risos na platéia do programa, acostumada a idolatrar participantes de BBB, Claudias Leittes e Sangalos da vida. Mallu não pareceu notar os risinhos dados por seu jeito expansivo e seu babytalking, algo que pode ser irritante, mas que soava agradavelmente fora de lugar no meio de tanta esperteza uniformizante e falsa. Ela explicou porque faz suas letras em inglês: - Eu componho em inglês porque gosto e prefiro.
Mallu é uma jovem mundial, produto de um planeta que gira em ritmos diferentes, que variam de acordo com a classe social. Se ela teve acesso a informação musical acima da média, seja em forma de leitura, filmes ou discos e se valeu delas para a composição de sua persona artística de classe média-alta, não há como recriminá-la por isso. E, claro, há que se entender o risinho do populacho do Altas Horas diante da espontaneidade da mocinha. Eles desconhecem a existência de vida além do que o plim-plim apresenta.
Mas, chega dessa lenga-lenga, pombas! As músicas são boas? Bem, é aquela história. Empreendendo um exercício de isenção e lavando o cérebro das informações que dão conta da existência de uns cinqüenta artistas/bandas que habitam o mesmo nicho da adolescente e fazem trabalhos melhores que o dela, dá para curtir o folkinho inconseqüente da guria.
O que é mais interessante nisso tudo é que os indies nacionais não parecem dotados de xenofobia, algo que impediu Kelly Key de ganhar os fãs da Britney Spears. Ou seja, o sujeito que gosta de Belle And Sebastian pode até torcer o nariz para canções como “J1” ou “Get To Denmark”, mas algo como um “sentimento de classe”, o conectará com a beleza pálida e os maneirismos indie de Mallu.
A exceção aqui é uma canção chamada “Tchubaruba”, que é uma engraçada declaração de amor e felicidade, como a menina que acorda e cumprimenta o sol, as árvores e o dia. É feliz, quase como um dia no jardim da infância, quando somos uns dois anos mais velhos e já o superamos. Uma canção infantil feliz, feita por alguém que só deve conhecer Johnny Cash pela exibição de Johnny And June nos cinemas ou que ouviu o pai cantar “O Leãozinho” para fazê-la dormir há poucos anos. Não são apenas besteras escritas do crítico que de crítico não tem nada, mas, são palavras da própria Mallu, numa entrevista dada na internet.
A menina é legal porque
é real. Ela poderia ser da sua sala de aula, do seu curso de
inglês. E só tem quinze anos. Imagine quando tiver
dezessete?
www.myspace.com/mallumagalhaes
INTERPOL
É muito fácil e
injusto dizer que o Interpol imita bandas inglesas
do início dos anos 80. E não há como negar a
presença da sonoridade delas no som que os nova-iorquinos
empreendem mas eles estão longe de ser meros
revisionistas.
INTERPOL
Na
Área
É aquela história: o
rock se pauta nas interpretações e leituras pessoais
desde que surgiu. O problema é que, à medida que o
tempo vai passando, as inspirações e
influências que determinam o processo criativo de artistas e
bandas é diluído e assimilado por uma engrenagem que
se incumbe de pasteurizar e limar todas as impurezas e
ameaças ao "bom mocismo" reinante no planeta.
E o quê Paul Banks, Daniel Kessler, Sam Fogarino e Carlos Dengler têm a ver com isso? A pergunta que muitos céticos e implicantes - dentre os quais este que vos escreve se inclui - podem fazer diante da presença da banda no país é: para que ouvir Interpol se podemos ouvir Joy Division, Echo & The Bunnymen ou, sei lá, Cure em seus momentos mais deprês?
O Interpol dá as caras no país do futebol pela primeira vez e promete causar frisson nos indies mais velhuscos, aqueles que já viram o bonde passar e estão nos vinte e poucos/muitos anos de idade. Aquela gente que se lembra do lançamento do primeiro disco do quarteto americano, Turn On The Bright Lights, em 2002, e de como ele soava melhor, mais denso e "difícil" que o rock puladinho de Strokes e similares.
Quando surgiram em 1998, Kessler (guitarra e vocais), Banks (guitarra e voz), Dengler (baixo e teclados) e Fogarino (bateria) tinham como ponto em comum aulas, atividades e situações de toda sorte gravitando a Universidade de New York. Na verdade, Fogarino entrou para o Interpol após a saída de Greg Drudy, em 2000, quando a banda começou a fazer pequenos shows na Grande Maçã e arredores.
Tudo começou em 2001, junto ao boom do "novo rock", liderado por Strokes e White Stripes, que deu a quase todas as bandas ativas em Nova York a chance de aparecer, emplacar músicas em coletâneas obscuras e assinar com selos independentes. E, como quase todas, o Interpol aconteceu primeiro na Inglaterra, foi alardeado, saudado e excursionou pela Velha Ilha. Claro, uma parada no programa do finado radialista John Peel também completou o itinerário de bandas antes do sucesso mundial. O Interpol cumpriu o figurino à risca antes de retornar ao lar.
O diferencial do Interpol em relação à maioria daquela enxurrada de bandas nascentes e despontantes para o estrelato é que todo mundo atestava influências no pós-punk americano, de Blondie a Television, deixando a existência de nomes como Cure, Joy Division e Echo & The Bunnymen em segundo plano. Essas três formações inglesas eram as molas mestras de seu som, junto com outras menos cotadas, como Mission Of Burma, Bauhaus ou Wedding Present, num caldeirão que ainda comportava uma pitada insuspeita da perversão noventista dos americanos do Afghan Whigs.
Com esse coquetel e toda uma preocupação visual que determinava o uso de ternos nos shows, o Interpol conquistou um público fiel quando lançou o primeiro disco na praça. Turn On The Bright Lights (2002) encontrou abrigo e amparo nos corações destroçados dos indies - novos e velhos – que adoraram e adotaram a banda como o seu novo e secreto Joy Division.
As letras do grupo e a atmosfera cinzenta de canções como "PDA", "Roland", "NYC", "Say Hello To Angels", além da graciosa "Leif Eriksson" atestavam o parentesco com o guitar sound inglês oitentista e dava ao Interpol aquele toque de estranheza e diferencial que uma banda precisa para existir. Enquanto o mundo pulava e celebrava um renascimento falso do rock, o quarteto praticava um som à moda antiga, cheio de charme e boas referências.
Quando o rock puladinho começou a receber sua segunda geração - sim, as gerações do novo som duravam dois discos ou dois anos, invariavelmente - em 2004, o Interpol, já alçado à condição de cult band mundial, lançou seu segundo e melhor disco, Antics. As guitarras de Banks e Kessler estão mais unidas, no propósito de cortar o espaço, secundadas por baixo, bateria e teclados ocasionais, no propósito de manter o culto.
Claro, as semelhanças com as formações que inspiraram o primeiro disco ainda resistem, mas é impossível ficar impassível diante de canções aerodinâmicas como "C'Mere", "Evil", "Narc" e o ponto mais alto do disco, os mais de sete minutos de "A Time To Be Small", encerramento do álbum e atestado de intenções devidamente ratificadas.
Como fora em 2002, Antics, dois anos depois conferia ao Interpol a chance de participar de todos os festivais importantes da Europa e Estados Unidos, num tempo em que Strokes já entregavam o cetro para Franz Ferdinand, numa mudança sem qualquer alteração no conteúdo da coisa toda.
Corta - Ano passado - 2007 vê o lançamento do terceiro disco do Interpol, Our Love To Admire, o primeiro pela toda-poderosa Capitol. Sim, a banda assinara com uma grande gravadora e enfrentava o teste da maturidade e de como lidar com orçamentos maiores, prazos maiores e o conforto material, talvez o maior inimigo da urgência criativa artística. O resultado é que Our Love To Admire não traz o mesmo poder de fogo dos trabalhos anteriores mas ainda conserva belos momentos.
A banda resolveu acrescentar arranjos de metais e cordas, como se precisasse mostrar um amadurecimento musical não exigido por público, crítica ou gravadora. O que salva o disco da decepção é a habitual competência do quarteto nas composições, algo que eles já mostraram desde o início. Canções como "No I In Threesome" (que lembra um Tears For Fears dark), o single "The Heinrich Maneuver", a densa e climática "Wrecking Ball" e a aura sessentista de "Rest My Chemistry" seguram a onda sem maiores problemas.
O tempo substituiu Franz Ferdinand por Arctic Monkeys no troninho do "rock" atual, mantendo o Interpol sozinho em seu cinzento ambiente. A chance de vê-los ao vivo vai confirmar a competência desses sujeitos que não parecem se importar com modas ou modismos. Ternos bem cortados e boas músicas são seus objetivos, alcançados.
Datas:
11/3 - Via Funchal - São Paulo
13/3 – Fundição Progresso – Rio
15/3 – Chevrolet Hall – Belo Horizonte




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